Nota de intenções
Quase 40 anos depois do fim da guerra colonial, o desenvolvimento prometido pela independência da Guiné-Bissau tarda em chegar. As notícias mais frequentes sobre o país relatam golpes de estado, actos de violência entre militares e políticos, ou a escalada do tráfico de droga. Factos que levam a que muitos apontem a actual Guiné-Bissau como um estado falhado. É neste cenário de instabilidade permanente que os líderes comunitários lutam para manter o poder e o estatuto conquistados ao longo de séculos, antes e depois da colonização portuguesa, procurando continuar a servir as populações que lideram.
Mamadu Camara, da etnia Nalu, é o régulo de Cadique, aldeia do sul da Guiné-Bissau. Mamadu tem 41 anos e é o quarto filho varão de Alaji Salifo Camara, um líder muito respeitado, falecido em 2011. Mamadu foi escolhido pela família – com o assentimento dos "homens grandes" - a suceder-lhe à frente do regulado de Cadique.
Na Guiné-Bissau, um país familiar e ao mesmo tempo uma pátria sobre o qual sabemos tão pouco, a inoperância do Estado central deixa as populações do mundo rural praticamente entregues a si próprias. Tal situação deveria, em princípio, reforçar o poder dos líderes locais, o que de facto acontece em várias regiões do país. Mas tem também acontecido, noutras zonas, uma progressiva erosão do prestígio dos líderes tradicionais e, consequentemente, da sua capacidade de agir.
Antes da independência, os régulos foram parte importante do exercício do poder colonial. As autoridades portuguesas promoveram os regulados, pois perceberam que os régulos seriam os melhores aliados para garantir a paz e a coesão social no território. Esta proximidade com o colonizador levou a que os régulos fossem mal vistos e até perseguidos no período pós-independência. Mas o novo poder guineense percebeu rapidamente que, perante a ineficácia da máquina governativa, o papel agregador das lideranças tradicionais não podia ser ignorado. Hoje os regulados da Guiné-Bissau são uma realidade diversa. Se há régulos que mantêm intacto o seu poder e prestígio, outros há que têm grandes dificuldades em fazer-se ouvir e respeitar pelas suas comunidades.
Mamadu Camara vê-se perante uma série de desafios. É um líder jovem, que precisa de conquistar o respeito dos seus e construir o seu carisma pessoal. Terá de lutar para que a sua voz seja escutada e obedecida, como acontecia nas gerações que o antecederam. O novo líder conta com o apoio dos homens grandes - os mais velhos, tidos como os sábios, mas terá de vencer as reticências dos jovens, sempre mais propensos em questionar a autoridade instalada.
Os Nalu têm uma forma muito própria de viver a religiosidade. Muçulmanos, combinam o culto a Maomé com práticas animistas que têm por figuras centrais os Irã (espíritos da natureza), entidades tão temidas como respeitadas.
Em 2012, a Guiné-Bissau assistiu a mais um golpe de Estado, que obrigou ao exílio do presidente interino e do primeiro-ministro (Carlos Gomes, vencedor da primeira volta das eleições presidenciais). Depois de as armas se calarem, o país ficou paralisado, entregue a um governo interino que não é reconhecido internacionalmente. O filme pretende mostrar como a crise política afecta as pequenas comunidades, como aquela que Mamadu lidera.
Ainda hoje, líderes políticos e militares consultam os Nalu para obter a protecção dos Irãs. Mamadu é líder porque os espíritos disseram que tinha qualidades para tal. Tem homem e a floresta Com a chegada de Ramos-Horta, mediador da ONU para a Guiné-Bissau, poderão líderes como Mamadu Camara ser ouvidos no processo de pacificação?
